Laboratório 14
O diagnóstico de receita da Órbita, apresentado a Helena Braga e a Cláudia Meirelles
Nove artefatos, catorze slides e apêndice de vinte · 36 a 40 horas · quatro semanas, com congelamento analítico no dia 16
O briefing. A reunião está marcada para daqui a quatro semanas. Trinta e cinco minutos: quinze de exposição e vinte de arguição. Helena Braga, a CEO, pediu vinte minutos com você antes de você começar e disse: “Eu concordei em encolher o SMB porque você me mostrou uma conta. A conta dizia oitocentos mil. Custou um milhão e trezentos mil, e agora eu preciso subir na frente do conselho com trinta e um milhões e novecentos contra um plano de trinta e quatro milhões. Eu não estou reclamando da decisão, ela foi minha também. Estou dizendo que da próxima vez eu quero a conta e quero a parte da conta que pode dar errado, com o número de quanto custa quando der. Se você não souber, escreva que não sabe. O que eu não aceito mais é descobrir em setembro.”
Ela não está sendo dura. Está sendo precisa, e está pedindo exatamente a peça que separa um relatório de um diagnóstico. Na mesma sala vai estar Cláudia Meirelles, que quer o break-even antes da Série C e já avisou que não aprova contratação sem payback calculado, e Sérgio Bittencourt, que abre toda reunião pedindo Regra dos 40 e burn multiple. Os três interesses são legítimos e incompatíveis no curto prazo. Sua recomendação tem que ser uma só, endereçada aos três ao mesmo tempo, e tem que caber nos R$ 2,9 milhões de caixa da empresa sem nova rodada. A restrição contratual está escrita: ARR ≥ R$ 45 milhões, NRR ≥ 110%, EBITDA ≥ 0, ou seja, ARR da empresa inteira de pelo menos R$ 45 milhões.
- O memorando de fatos. Duas páginas, entregues no fim da semana 1, e avaliadas pela ausência de julgamento tanto quanto pela exatidão. Só fatos reconciliados e divergências nomeadas com a causa. Reconstrua a cascata de 2026 por segmento e prove que os três segmentos somam ao consolidado, termo a termo, antes de calcular qualquer média. Reconcilie quatro documentos que hoje discordam: a cascata de ARR, a contagem de clientes, a receita reconhecida da DRE e a folha de comissões. A identidade da cascata tem que aparecer com os cinco termos e fechar em R$ 31,9 milhões. A identidade da receita também: faturamento menos recebimentos igual à variação de contas a receber, que na Órbita de 2025 deu R$ 1,15 milhão e que a versão de bolso do formulário não reproduz. Toda divergência que sobrar entra numa tabela com valor em reais, sistema onde nasce, causa provável e dono proposto. Nenhuma linha chamada outros. Nenhuma opinião. Se você escrever a palavra preocupante neste documento, ele volta.
- Os três achados. Uma página, no fim da semana 2. Três, não sete, e a restrição é pedagógica: priorizar é o músculo que você menos exercitou nos treze módulos. Cada achado tem quatro componentes obrigatórios e a falta de um o rebaixa a observação: a evidência com o número e a fonte, a causa provável distinguida do sintoma, a consequência quantificada em reais e em prazo, e a função que pode agir sobre isso. Ordene por tamanho do prêmio, calculado sobre a base atual e com alvo defensável, que é o melhor segmento interno da própria Órbita ou uma mediana pública com fonte, ano e recorte citados. Pelo menos um dos três não pode ser um achado de receita: a folha de comissões, o inventário de ferramentas e a base de prospecção enriquecida são camadas da auditoria por uma razão. E escreva, em cinco linhas, quais observações você descartou e por quê. A parte da priorização que quase ninguém entrega é a lista do que ficou de fora.
- O plano de 2027 e os sete cruzamentos. Planilha mais quatro páginas, no fim da semana 3. Meta por segmento derivada do diagnóstico e não da preferência do CEO. Modelo de capacidade por coorte de admissão, em meses produtivos equivalentes, com a rampa de cada segmento aplicada: a Órbita publica 9 meses para o AE de enterprise e 6 para o de mid-market, e a diferença entre admitir em janeiro e admitir em abril é sua para calcular e mostrar. Inclua os backfills da rotatividade histórica, porque a posição que vaga também tem rampa. Plano de remuneração variável com quota por função, mix, aceleradores e regras de crédito, custeado carregado. Roadmap de tecnologia em três ondas, higienizar, integrar e automatizar, sequenciadas pela camada travante, com a justificativa escrita de por que a onda 2 não pode vir antes da onda 1. Proposta de time de RevOps que começa com uma pessoa, dizendo o que ela entrega na semana 1. Feche com os sete cruzamentos executados e o resíduo de cada um à vista. Faça isso no último dia da semana, antes de abrir qualquer ferramenta de apresentação, porque depois dos slides prontos corrigir custa caro e a tentação de arredondar vira irresistível. Três cenários, um plano: cada cenário com uma variável-chave, um limiar numérico, uma ação pré-acordada e um dono. Entregar três planos para a liderança escolher é devolver a Helena a decisão que era sua.
- A apresentação e o pedido. Catorze slides mais apêndice de vinte, na semana 4, dentro do congelamento. Slide 1 é a recomendação em uma frase com o número que a sustenta. Se o slide 1 for agenda, recomece. Abertura em situação, complicação, pergunta e resposta. Um gráfico por ideia, com título que afirma em vez de descrever: “O vazamento maior não está em nenhuma taxa publicada” é título; “Funil 2026” é legenda de eixo. O slide do pedido lista o que se decide, quem decide, até quando e o que acontece se não decidir, e traz obrigatoriamente um pedido de autoridade, do tipo quem passa a ser dono da definição de cliente ativo, e um pedido de interrupção, isto é, qual iniciativa em andamento morre para esta caber. O slide de falseabilidade nomeia a métrica, o valor e a data que provariam que você estava errado desde o começo, e ele não é o slide de riscos. O apêndice se organiza por pergunta previsível, não por ordem de análise.
- A objeção. Antes de entregar, escreva meia página com o título “Por que isso não vai funcionar”. Escolha a pessoa que mais perde com a sua recomendação e escreva a objeção dela em primeira pessoa, com as palavras que ela usaria. Se você recomenda encolher mais o SMB, a pessoa é Helena Braga, e o que você está tirando dela não é um segmento: é o primeiro produto que ela vendeu, a prova de que a empresa funcionava. Se você recomenda travar o desconto por matriz de aprovação, a pessoa é Rafael Nunes, e ele não é o problema: o desconto aprovado por ele é parte da razão pela qual a empresa cresceu 34,8% em 2025. Se você recomenda comissionar renovação, a pessoa é Diego Salles, o melhor vendedor do time, que tem o maior desconto médio e a pior retenção de carteira, e que vai ler a mudança como punição pelo que ninguém nunca lhe pediu para evitar. Responda à objeção com um número e não com um princípio. E escreva como você conduz a conversa sem humilhar ninguém na frente do conselho, porque o achado correto apresentado de forma humilhante não é aceito, e um achado não aceito não vale nada.
- A verificação em 90 dias. Termine nomeando uma única métrica que estará diferente em noventa dias se a recomendação for comprada. Uma. Escreva a linha de base de hoje com a fonte exata de onde ela sai, o valor prometido em noventa dias, quem lê o número e em qual reunião, e o que acontece se ele não se mexer. “Melhorar a previsibilidade” não é métrica. “Cobertura de quota: 1,0× da meta de venda nova em 31/12/2026, lida da tabela de quotas do Bloco 6 contra a meta do plano aprovado, abaixo do 1,00 que a junção 1 da Figura 14.0 exige antes de qualquer desconto de rampa; meta de 1,00 no plano de 2027 publicado em 31/03, lida por mim e pela CFO no fechamento mensal; se não chegar lá, o plano de comissão de 2027 não é publicado” é. Sem essa linha, você entregou um documento bem formatado sobre uma empresa, e a Órbita já tem nove painéis para isso.
Uma restrição de forma, que vale nota. Os nove artefatos cabem no que cabe: duas páginas de memorando, uma de achados, quatro de plano, uma de parecer, catorze slides e o apêndice. Volume não é profundidade, e nenhum executivo lê quarenta slides de análise impecável que terminam em próximos passos a discutir. E uma restrição de conteúdo, que vale mais: a Órbita fechou 2026 com R$ 2,9 milhões em caixa contra R$ 4,2 milhões na abertura, com 11 meses de pista e 117 pessoas. Um plano que exige um time que não existe, ou um caixa que a empresa não tem, é um plano que não vai acontecer, por mais correto que esteja. Faça a autoavaliação na rubrica antes de entregar. A diferença entre a sua nota e a da banca é, ela mesma, um dado sobre a sua calibração, e calibração é o que faz alguém ser chamado de volta.
Critérios de avaliação
| Dimensão | Insuficiente | Adequado | Nível MBA |
|---|---|---|---|
| Integridade dos números (20 pontos, critério-trava) | A cascata não fecha e aparece uma linha de ajuste, outros ou diferença de metodologia. A contagem de clientes não reconcilia com os contratos. Números de ARR diferentes aparecem em slides diferentes do mesmo material. Duas ou mais das divergências plantadas no caso passam despercebidas. Ficar neste nível aqui reprova o trabalho com qualquer total, e a regra é declarada antes do trabalho começar. | A cascata fecha com diferença inferior a 0,5% e a identidade ARR final igual a ARR inicial mais novo mais expansão menos contração menos churn é mostrada com os cinco termos. A contagem de clientes reconcilia. Cada divergência remanescente está nomeada com valor em reais, sistema onde nasce e causa. Cita a fonte exata de cada número, com nome do arquivo e data da extração. | Reconstrói a cascata por segmento e mostra que os três somam ao consolidado, termo a termo, antes de usar qualquer média. Separa o que é divergência de definição do que é divergência de recorte temporal, e prova a separação recalculando uma das duas sob a definição da outra. Declara explicitamente o resíduo que sobrou sem explicação e o tamanho dele em reais, em vez de arredondá-lo para fora do slide. |
| Qualidade do diagnóstico (20 pontos) | Os achados são sintomas: churn alto, pipeline fraco, CRM bagunçado. Falta pelo menos um dos quatro componentes obrigatórios na maioria deles. A lista tem sete ou mais itens sem hierarquia, ou tem três itens escolhidos por serem os mais fáceis de consertar. O tamanho do prêmio é dimensionado sobre um cenário perfeito, do tipo se o churn fosse zero. | Exatamente três achados, cada um com evidência numerada e sua fonte, causa distinguida do sintoma, consequência em reais com a conta visível e a função responsável nomeada. O prêmio de cada achado usa alvo defensável, que é o melhor segmento interno ou uma mediana pública com fonte, ano e recorte citados. Os três estão ordenados por tamanho do prêmio. | Aplica o teste dos cinco porquês a um número e chega a uma causa que não estava na tabela de origem, ligando duas medições que ninguém tinha cruzado. Justifica por escrito quais observações foram descartadas e por quê, o que é a parte da priorização que quase ninguém entrega. Compara o prêmio de retenção com o custo de gerar o mesmo ARR por venda nova, mostrando que ARR preservado tem razão de CAC igual a zero. |
| Plano e viabilidade (20 pontos) | A capacidade é somada como headcount de fim de período vezes quota, o que ignora rampa, mês de admissão e vacância e infla o número pela capacidade que nenhuma das três deixa acontecer. O calendário de contratação é anual e não mensal. Os cenários são três planos entregues à liderança para escolher. Não existe lista do que a empresa deve parar de fazer. O plano não cabe no caixa e isso não é mencionado. | A capacidade é calculada por coorte de admissão em meses produtivos equivalentes, com a rampa do segmento aplicada e o atingimento planejado declarado. Os sete cruzamentos estão executados e documentados, com o resíduo de cada um. Cada cenário tem uma variável-chave, um limiar numérico, uma ação pré-acordada e um dono. Há lista explícita do que parar de fazer, com o valor liberado por item. | Mostra a mesma contratação em dois meses de admissão diferentes e quantifica a perda de capacidade da segunda, transformando a discussão de contratar mais gente em contratar antes, que é decisão de caixa. Dimensiona o risco de vacância pela rotatividade histórica e inclui os backfills no calendário. Aponta o mês do ano a partir do qual uma contratação deixa de contribuir para o ano corrente e recomenda o que fazer com o orçamento dela. |
| Comunicação executiva (15 pontos) | O slide 1 é agenda, contexto ou metodologia. A recomendação aparece depois do slide 8, quando aparece. Títulos de gráfico descrevem em vez de afirmar. Não há slide de pedido, ou o pedido é só orçamento. Não há apêndice. A exposição não cabe em quinze minutos. | Slide 1 traz a recomendação em uma frase com o número que a sustenta. A abertura segue situação, complicação, pergunta e resposta. Um gráfico por ideia, com título que afirma. O slide do pedido lista o que se decide, quem decide, até quando e o que acontece se não decidir, incluindo pelo menos um pedido de autoridade e um de interrupção. Apêndice com no mínimo vinte slides organizados por pergunta previsível. | Tem slide de falseabilidade que nomeia a métrica, o valor e a data que provariam que a recomendação estava errada, e o distingue do slide de riscos. Sustenta o teste dos noventa segundos: alguém que leia só os slides 1 e 2, cronometrado, consegue repetir a recomendação e o número. O pedido de interrupção nomeia a iniciativa que morre e quem a patrocina hoje, porque pedido de orçamento sem pedido de interrupção é pedido de esforço. |
| Arquitetura de dados e sistemas (10 pontos) | O inventário de ferramentas é uma lista de nomes e preços, sem dono, sem o campo de que cada uma é fonte de verdade e sem uso medido. O roadmap propõe automação antes de a definição de cliente ativo estar escrita. A duplicidade entre o CRM e a planilha de faturamento aparece como incômodo e não como valor em reais. Nenhuma camada é apontada como travante, de modo que as três ondas poderiam ser executadas em qualquer ordem. | O inventário traz, ferramenta a ferramenta, custo anual, dono nomeado, o campo de que ela é fonte de verdade e a evidência de uso, e as linhas sem dono aparecem com o valor que o corte libera. As três ondas, higienizar, integrar e automatizar, estão sequenciadas com a justificativa escrita de por que a onda 2 não pode vir antes da onda 1. Cada integração proposta declara a direção do dado, a frequência e a regra de conflito. | Mostra a linhagem de um número de ponta a ponta, do campo onde ele nasce até o slide onde ele é lido, e nomeia em qual salto a definição muda. Prova que a camada travante trava, recalculando um indicador sob a definição corrigida e medindo quanto ele se move. Trata o dicionário canônico como entrega de sistema, com dono, versão e data de vigência, e não como anexo de documentação. |
| Defesa oral (10 pontos) | Responde com um número a toda pergunta, inclusive às que não sabe. Confunde estimativa com medição e não avisa qual é qual. Vai procurar o valor na planilha durante a reunião. Aceita a premissa embutida na pergunta do conselheiro e passa a defender um número que não é o seu. Leva vinte minutos para chegar ao ponto quando o tempo de arguição inteiro é de vinte. | Separa em voz alta o que sabe, o que estimou e o que não sabe, e para cada não sei diz até quando terá o número e quem o produz. Vai ao apêndice em vez de improvisar, citando o slide pelo número. Nomeia a premissa da pergunta antes de responder, quando ela é diferente da sua. Responde em uma frase e para, deixando a pergunta seguinte ser feita. | Antecipa as três perguntas mais caras, as que derrubariam a recomendação, e leva a resposta de cada uma no apêndice com a conta pronta. Diz qual número mudaria a própria recomendação, e em quanto, antes de alguém perguntar. Quando o dado contraria o achado, apresenta o dado e a revisão do achado na mesma frase, porque quem revisa em público na primeira vez continua sendo ouvido na segunda. |
| Conformidade e risco Brasil (5 pontos) | O custo do plano de remuneração é calculado sobre o valor bruto pago, ignorando encargos, e o erro aparece inteiro na projeção de caixa. O estorno praticado pela empresa não é identificado, ou é identificado como prática ruim sem base legal citada. A palavra LGPD não aparece, ou aparece como assunto do jurídico. Receita diferida e faturamento são usados como sinônimos de receita. | O custo do variável é calculado carregado, com o fator declarado e a composição aberta, e a comissão é tratada como parcela que reflete em décimo terceiro, férias com um terço, repouso semanal e FGTS. O estorno por cancelamento é identificado como vedado, com a base legal citada nominalmente. O achado de base de prospecção sem base legal registrada aparece com dono e prazo. A projeção de caixa separa faturamento, receita reconhecida e recebimento. | Distingue insolvência de inadimplência ao discutir o estorno, porque a lei trata as duas de forma diferente, e propõe a saída legítima, que é desenhar o gatilho de aquisição do direito à comissão dentro do próprio plano em vez de estornar depois. Dimensiona o passivo contingente acima do valor estornado, porque a comissão integra a base de outras verbas. Marca, ferramenta a ferramenta no inventário, onde há dado pessoal e qual é a base legal. |