11.labCapítulo 0 de 8

Laboratório 11

Laboratório 11

O comitê de investimento: aprovar, reprovar e provar

Quatro peças de uma página, uma planilha de TCO e um anexo de governança · 14 a 18 horas · entrega no fim da semana do Módulo 11

O briefing. Você é o head de RevOps da Órbita e tem 40 minutos na reunião de orçamento, com Helena Braga e Cláudia Meirelles na sala. O orçamento liberado é de R$ 320 mil para 36 meses, há três propostas de fornecedor na mesa e um inventário de nove candidatos a automação que você mesmo levantou. Antes de você abrir o primeiro slide, a CFO diz: “Eu não aprovo ferramenta. Eu aprovo uma conta. Me diga qual decisão passa a ser tomada de outro jeito, quantas vezes por mês isso acontece, quanto custa errar, e em que mês o acumulado cruza o zero. Se a sua primeira frase for o nome de um produto, a reunião acabou e a gente remarca quando você tiver a conta.”

Ela não está sendo difícil. Está dizendo em voz alta a regra deste módulo. A Órbita gasta hoje R$ 470 mil por ano nas 9 camadas de software de receita que já assinou, e tem 612 MQL por ano que ninguém tocou, mediana de 19 horas até o primeiro contato humano, percentil 90 de 4.2 dias, e o roteamento feito à mão por Otávio Lins toda segunda-feira de manhã. A décima ferramenta não resolve isso sozinha. A sua tarefa é provar, com aritmética que a CFO consiga refazer, qual candidato merece o orçamento, quais estão bloqueados e por qual degrau, e o que impede o projeto aprovado de virar mais uma assinatura que ninguém administra.

A restrição que o briefing não esconde. A proposta que o capítulo 11.7 aprova, roteamento com acordo de tempo de resposta mais enriquecimento firmográfico, custa R$ 334,9 mil de custo total em 36 meses. O orçamento liberado é de R$ 320 mil. Faltam R$ 14,9 mil, e isso é parte do exercício, não erro de enunciado. Comitê de investimento raramente aprova o que cabe: ele decide o que sai para caber. A sua peça precisa escolher um dos três caminhos e defendê-lo com número. Reduzir escopo, dizendo qual camada encolhe e o que se perde de benefício com ela. Pedir orçamento adicional, dizendo contra qual linha do plano ele sai. Ou adiar uma das outras propostas, dizendo qual e por quanto tempo. Entregar a planilha estourada sem escolher é a resposta que reprova.

  1. A triagem dos nove candidatos. Uma página, em tabela. Classifique cada um dos nove candidatos do inventário na escada de maturidade (processo, dado, regra, automação determinística, modelo preditivo, agente) e na matriz frequência por reversibilidade. Para cada candidato escreva a regra em uma frase de português com sujeito, condição e ação. Marque como BLOQUEADO qualquer candidato em que você não consiga escrever essa frase, e diga qual degrau falta, com a evidência que o prova. Espera-se que pelo menos três sejam bloqueados. Um deles é a desqualificação automática de conta, que a Órbita quer ligar sobre um campo de segmento errado em 22% dos clientes; outro envolve o campo de motivo de perda, que tem 214 valores distintos digitados à mão. Feche a peça com a coluna que ninguém preenche: o que acontece com o tempo liberado por cada candidato aprovado. Se a resposta for “nada”, escreva zero no benefício e defenda o candidato mesmo assim, ou tire-o da lista.
  2. O business case de uma página. Escolha um candidato para financiar e escreva a peça que a CFO pediu, nesta ordem: problema em uma frase com número; decisão pedida em uma frase; benefício quantificado com a premissa de uplift declarada e justificada; custo total de propriedade de 36 meses nas cinco camadas; ROI; payback em meses; tabela de sensibilidade com cenário pessimista, base e otimista; o uplift mínimo de break-even; três riscos com mitigação; e o critério objetivo de desligamento. O benefício sai de baixo para cima, dos 3.050 MQL do ano, da conversão de 30,0% de MQL para SQL, da conversão de SQL para cliente e do ACV médio do logo novo, por cliente e por ano, de R$ 37,3 mil, com margem bruta de 78,0% aplicada antes de qualquer conta de retorno. Uma proposta está em dólar por usuário por mês: converta em reais com câmbio e IOF declarados e inclua um cenário de estresse cambial na tabela de sensibilidade. Se o seu ROI passar de dez vezes, refaça a premissa de uplift antes de entregar: número bonito demais é o primeiro sintoma de premissa não declarada.
  3. O parecer de validação do modelo. O fornecedor de pontuação preditiva entregou três artefatos: uma tabela de decis com volume, conversão observada e probabilidade média prevista por decil; um gráfico de previsto contra observado; e um dicionário com 19 campos usados pelo modelo, com a data típica de preenchimento de cada um. Emita um parecer de APROVAR, APROVAR COM RESTRIÇÃO ou REPROVAR contendo, nesta ordem: a taxa base apurada por você a partir dos dados entregues, e não a informada pelo fornecedor; o lift do primeiro decil e o lift acumulado do primeiro ao terceiro; a verificação de monotonicidade, com as inversões nomeadas; o erro de calibração em pontos percentuais e a consequência operacional dele; a identificação nominal dos campos com suspeita de vazamento de alvo, justificada pelo teste do carimbo de tempo e não por intuição; a pergunta de corte de data que você fez ao fornecedor e qual resposta você aceitaria; e, por fim, a pergunta que reprova a maioria dos modelos bons. A Órbita tem escassez de capacidade no processo onde esse score entraria? O inbound toca hoje uma fração conhecida dos MQL e o mercado endereçável é de 13.900 empresas para 544 clientes, ou 3,9% de penetração. Um dos dois processos tem escassez. O outro não. Diga qual, com a razão universo dividido por capacidade escrita.
  4. O anexo de governança. Uma página, para o candidato financiado. Finalidade; base legal escolhida e por quê; resumo da avaliação de legítimo interesse; campos pessoais tratados, separados com clareza do que é dado público de CNPJ; onde os dados trafegam e quais sub-operadores estão envolvidos, inclusive transferência internacional; o que fica registrado em cada etapa da decisão e em que instante a gravação acontece; prazo de retenção por finalidade; e como um titular pede revisão humana de uma decisão automatizada, com prazo em dias e responsável nomeado. A Órbita chega aqui com 84.000 contatos sem base legal registrada, sem fluxo de atendimento a titular e sem encarregado nomeado. O anexo não resolve o passivo inteiro, e não deve fingir que resolve: ele precisa dizer o que passa a valer para o tratamento novo e qual é o plano com prazo para o estoque antigo. Termine com a data de revisão anual do próprio anexo, escrita como data e não como intenção.
  5. A objeção política. Meia página, com o título “Por que isso não vai funcionar”. Escolha a pessoa que mais perde com a sua proposta e escreva a objeção dela em primeira pessoa, com as palavras que ela usaria. Se você automatizou o roteamento, a pessoa é Otávio Lins, e o que você está tirando dele não é uma tarefa chata de segunda-feira: é o único momento da semana em que ele decide quem recebe o quê, que é a forma real como ele protege o time dele. Se você propôs pontuação preditiva no outbound, a pessoa é Rafael Nunes, que vai perguntar por que um número deve mandar no vendedor quando a empresa cresceu 34,8% sem ele. Se você propôs revisão humana obrigatória no disparo em massa, a pessoa é Aline Ferraz, cuja meta é volume de MQL. Responda com um número e com uma mudança concreta no desenho, não com um princípio. Quem não antecipou a objeção não fez uma recomendação. Fez um pedido.
  6. A verificação em 90 dias. Termine nomeando uma única métrica que estará diferente em 90 dias se o projeto for aprovado. Uma. Escreva a linha de base de hoje com a fonte exata de onde ela sai, o valor prometido em 90 dias, quem lê o número e em qual reunião, e o que acontece se ele não se mexer. “Melhorar a eficiência do funil” não é métrica. “Mediana de tempo até o primeiro contato humano em leads de inbound: 19 horas hoje, medida na exportação de atividades do CRM; meta de 6 minutos no percentil 50 e de 4 horas no percentil 90 ao fim do trimestre, que é o par declarado em 11.3; lida por mim e por Rafael Nunes na revisão semanal de funil; se não se mexer em dois trimestres seguidos, o contrato não é renovado” é métrica. Sem essa linha, o dossiê é uma opinião bem formatada sobre tecnologia, e a Órbita já tem 3 fluxos automatizados que ninguém mede, um deles quebrado há nove meses sem que ninguém notasse.

Duas restrições de forma, e elas valem nota. Primeira: cada peça cabe em uma página, os números batem entre as peças, e existe uma frase única que Cláudia Meirelles pode repetir para o conselho sem tradução. Segunda: nenhum nome de produto no corpo do dossiê. Escreva a categoria, o que ela decide, com que frequência e com que custo de erro. Os nomes vão no anexo de propostas, onde envelhecem sozinhos sem levar o argumento junto. A Órbita tem 104 pessoas e 11 AE. Um plano que exige um time que não existe é um plano que não vai acontecer, por mais correto que esteja.

Critérios de avaliação

DimensãoInsuficienteAdequadoNível MBA
Triagem pela escadaClassifica os nove candidatos por intuição ou por ordem de incômodo, e bloqueia dizendo que “falta maturidade” sem nomear o degrau. Nenhum candidato é bloqueado, ou os bloqueados são os que ninguém queria mesmo. A regra em português não é escrita, ou é escrita sem sujeito: “melhorar o roteamento” em vez de “se a conta tem porte mid e o segmento é varejo, o dono passa a ser o AE de plantão do rodízio”.Cada candidato recebe um degrau nomeado (processo, dado, regra, automação, predição, agente) e uma posição na matriz frequência por reversibilidade. Pelo menos três são bloqueados, e cada bloqueio nomeia o degrau ausente com a evidência que o prova. A regra de cada candidato aprovado cabe em uma frase com sujeito, condição e ação.Para cada bloqueio, estima o custo de automatizar assim mesmo, em reais ou em registros afetados por mês, e o compara com o custo de construir o degrau que falta. Reconhece pelo menos um caso em que o degrau ausente é o 1 e não o 2, isto é, o problema não é dado sujo, é que a empresa nunca decidiu qual é o processo. Usa os 6 objetos sem definição escrita da Órbita como prova, e não como opinião.
TCO em cinco camadas e câmbioO custo apresentado é a licença. A implantação aparece como “a definir”. A administração recorrente não aparece, e a pergunta “quem é o nome da pessoa que administra isso em março do ano que vem” fica sem resposta. O contrato em dólar é convertido pela taxa do dia da aprovação, sem IOF e sem cenário de estresse.As cinco camadas estão na planilha com valor em reais para 36 meses: licença, implantação, integração e manutenção técnica, administração recorrente e treinamento com gestão de mudança. A fração de FTE de RevOps é explícita e multiplicada por um custo carregado declarado. A licença aparece como percentual do total. O câmbio e a alíquota de IOF usados estão escritos no rodapé, com a data da cotação.Mostra que a licença fica perto de metade do total e nomeia qual é a segunda maior camada, que raramente é a implantação. Ancora o custo carregado numa conta verificável, e não num palpite: a folha carregada da Órbita é de R$ 17,6 milhões para 104 pessoas, o que dá R$ 14,1 mil por pessoa por mês. Inclui o custo de saída, com formato de exportação e prazo de devolução de dados negociados antes da assinatura.
Business case e sensibilidadeApresenta um único cenário, com benefício redondo e sem premissa declarada. Usa ganho de produtividade autorrelatado de pesquisa de fornecedor como benefício. Confunde economia de tempo com receita: escreve “o time economiza 12 horas por semana” sem dizer o que acontece com o tempo liberado. O ROI é grande e o CFO não tem como testá-lo.O benefício é construído de baixo para cima, com a aritmética visível, a partir de volume, conversão e valor médio do contrato. A premissa de uplift é declarada, justificada como conservadora e comparada com a literatura citando fonte, ano e recorte. Há três cenários, payback em meses e ROI de 36 meses. O destino do tempo liberado está escrito: vira cobertura, vira contratação evitada, ou vira zero.Apresenta o mínimo de break-even e o transforma na frase única que o CFO repete para o conselho, no formato “preciso de menos de um ponto percentual na conversão de entrada para o projeto se pagar” ou “bastam seis registros recuperados por mês, de cinquenta e um que hoje ninguém toca”. Traz o critério objetivo de desligamento junto do pedido de aprovação, com métrica, data de medição e patamar. Declara qual premissa é a mais frágil e o que tornaria a própria recomendação errada.
Parecer de validação do modeloAceita a taxa base informada pelo fornecedor. Conclui olhando só o primeiro decil. Comemora acurácia alta. Não pergunta a data de corte entre treino e teste. Trata calibração e ordenação como a mesma coisa, ou não menciona calibração. A suspeita de vazamento de alvo, quando aparece, é justificada por intuição e não pelo carimbo de tempo.Recalcula a taxa base a partir dos dados entregues, apura lift do primeiro decil e lift acumulado até o terceiro, verifica monotonicidade e aponta inversões. Identifica pelo menos três dos cinco campos vazados aplicando a pergunta “esse campo já estava preenchido, com este valor, no instante em que eu preciso pontuar”. Faz a pergunta da data de corte e registra a resposta aceitável.Separa ordenação de calibração e conclui proibindo o uso do score no pipeline ponderado enquanto houver superestimativa sistemática, quantificando o viés em pontos percentuais e explicando por que o erro se soma em vez de se cancelar. Aplica um deságio declarado sobre o lift medido em teste histórico antes de levar o número ao comitê, e diz qual é o deságio e por quê. Responde à pergunta que reprova a maioria dos modelos: existe escassez de capacidade no processo alvo, e qual é a razão universo dividido por capacidade.
Governança e trilha de auditoriaCita artigos da LGPD sem operacionalizá-los. Afirma ou insinua que prospecção entre empresas não está sob a lei. Não distingue dado de CNPJ, que é público, de nome, cargo, e-mail nominal e telefone direto, que identificam pessoa natural. O canal de revisão humana é “falar com o jurídico”, sem prazo e sem responsável nomeado. A trilha de auditoria é prometida como relatório a ser produzido depois.Escolhe uma base legal, defende a escolha e resume a avaliação de legítimo interesse. Lista os campos pessoais tratados, os sub-operadores e onde os dados trafegam. Define retenção por finalidade. Descreve o canal de revisão humana com prazo em dias e responsável nomeado do quadro da Órbita. Enfrenta explicitamente os 84.000 contatos sem base legal registrada em vez de ignorá-los.Marca no desenho do fluxo os instantes exatos de gravação obrigatória (origem e base legal, fornecedor de enriquecimento, versão do modelo e valor do score, regra ou limiar aplicado, efeito e responsável) e demonstra por que nenhum deles pode ser reconstruído retroativamente. Declara a data de revisão anual do próprio anexo. Trata a sanção prática como ela é para uma empresa deste porte: não é o teto de multa, é a medida preventiva de suspensão de tratamento no meio do trimestre e a linha que abre na diligência da Série C.

A Órbita Software é uma empresa fictícia, construída para este curso. Por que um caso fictício.