12.6 ADKAR e Kotter sem virar slide de consultoria
A esta altura você tem barreiras concretas na mão. Sabe que o mid-market subiu a camada 2 sem treinamento e que o SMB não subiu. Sabe que dois campos caros foram cortados e que o resíduo não desapareceu. É agora que os modelos de gestão de mudança servem para alguma coisa, e não antes.
A ordem é deliberada e contraria a convenção de todo curso sobre o assunto. ADKAR ensinado no primeiro capítulo produz cinco letras decoradas e nenhum diagnóstico. O aluno aprende o vocabulário e continua prescrevendo treinamento para tudo, porque treinamento é a intervenção que ele já sabia comprar. Ensinado aqui, o modelo vira o que ele é: um instrumento de classificação de problemas que você já mediu.
Pergunta antes de ler
A Órbita tem 15 pessoas em vendas e a nova exigência de próximo passo com data não pegou em parte do time. Rafael Nunes quer contratar um treinamento de meio dia para as 15, ao custo de tempo de time de R$ 6.865, sem contar o instrutor.
Escreva agora, antes de continuar, quantas das 15 pessoas você acha que não preenchem o campo porque não sabem como. Um número inteiro entre 0 e 15.
Quase todo leitor escreve um número entre 5 e 12, e a plausibilidade disso é o problema. A pergunta parece pedir uma estimativa de competência do time e está pedindo outra coisa: a fração de um comportamento ausente que é explicada por ignorância do procedimento, em oposição a desinteresse, impossibilidade prática ou ausência de consequência. São quatro causas diferentes, e treinamento age sobre uma. Comprar treinamento sem separar as quatro é comprar um remédio pelo preço e não pelo princípio ativo.
- ADKAR e ponto de barreira
ADKAR descreve a mudança de uma pessoa em cinco elementos que acontecem em sequência: Awareness, consciência da necessidade da mudança; Desire, desejo de participar e apoiar; Knowledge, saber como mudar; Ability, demonstrar a habilidade na prática; e Reinforcement, o que sustenta e impede a regressão.
O ponto de barreira é o primeiro elemento não atingido. É onde toda a intervenção deve ser concentrada, porque os elementos posteriores não se constroem sem ele. Consciência de que a mudança está acontecendo não é consciência da necessidade dela, e confundir as duas é o erro de leitura mais comum do modelo.
Por que importa: o valor do ADKAR está em ser individual. Ele obriga você a olhar pessoa por pessoa em vez de tratar o time como uma entidade com um humor médio. E é o antídoto contra o reflexo dominante, que é comprar mais treinamento. Treinamento é uma intervenção de Knowledge. Se a barreira está em Desire ou em Ability, ele não move nada e você não descobre isso por três meses.
Arraste o desenho para o lado para ver inteiro
Leia o desenho duas vezes. Na horizontal ele diz o que fazer com cada pessoa, e isso já é mais do que quase qualquer time tem hoje. Na vertical ele diz algo que nenhuma tabela mostra: dois retângulos tracejados marcam os lugares onde a barreira se alinhou. Três AE júnior de SMB travados na mesma coluna, e os dois AE sênior de enterprise travados em outra.
Para cada pessoa, nota de 1 a 5 em cada elemento. Ponto de barreira = primeiro elemento com nota ≤ 3. Intervenha só ali.
A regra é de economia de atenção. Você tem um número pequeno de horas de gestor por semana. Gastá-las em elementos posteriores ao ponto de barreira é gastar em algo que não vai se sustentar, porque o elemento anterior continua faltando.
A escada: cinco degraus, cinco intervenções diferentes
Cada elemento pede uma intervenção que não se substitui pelas outras. É por isso que a resposta única falha, e a resposta única é quase sempre treinamento, porque treinamento tem fornecedor, nota fiscal e data no calendário. As outras quatro exigem que alguém de dentro faça alguma coisa diferente na segunda-feira.
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Na práticaÓrbita Software · fev/26
Passo 1, a contagem. Das 15 pessoas, 2 não têm barreira, 2 param em consciência da necessidade, 2 em desejo, 2 em saber como fazer, 3 em conseguir fazer e 4 em reforço. A intervenção de treinamento endereça 2 das 15, ou 13,3% do time.
Passo 2, o preço do reflexo. O treinamento de meio dia custa 15 pessoas × 4 horas × R$ 114 de custo horário carregado = R$ 6.865 de tempo de time (arredondado, porque a taxa por hora aparece arredondada para o real cheio), sem instrutor. Dividido pelas 2 pessoas cujo ponto de barreira ele atinge, dá R$ 3.433 por pessoa endereçada. As outras 13 passam meio dia numa sala confirmando que já sabiam.
Passo 3, o bloco de SMB. Os três AE júnior de SMB travam em conseguir fazer, com notas altas em saber. Eles sabem o procedimento e não conseguem executá-lo. O ciclo do SMB é de 38 dias e o segmento fecha 128 negócios por ano sobre 352 oportunidades. Uma fração grande desses negócios se resolve em dois toques, e num negócio de dois toques o próximo passo com data acordada frequentemente não existe: o próximo passo é assinar.
Passo 4, a inversão. A conclusão não é que os três são desleixados. É que o processo não cabe no segmento. A Órbita mudou a regra: no SMB, o campo só é obrigatório depois de 21 dias na etapa, o que deixa de fora justamente os negócios de dois toques. A camada 2 do SMB subiu em três semanas, sem uma única hora de treinamento adicional.
Passo 5, o bloco de enterprise. Os dois AE sênior travam em consciência da necessidade, com notas altas em tudo o que vem depois. A mudança foi comunicada a eles como um ajuste de campo do CRM. Ninguém explicou por que um ciclo de 186 dias, com 36 oportunidades por ano e 2 pessoas carregando a conta, é exatamente o lugar onde um negócio parado passa seis semanas despercebido. A intervenção não é treinamento. É uma conversa de vinte minutos com o número na mesa.
O veredito. Quando o ponto de barreira se repete na mesma posição para um subgrupo inteiro, a probabilidade de serem todos iguais por coincidência é menor do que a de o desenho não caber naquele grupo. A hierarquia de hipóteses é sempre a mesma: primeiro desenho, depois ferramenta, depois consequência, e só então pessoa.
Os gestores também têm um ponto de barreira
Existe uma parte do mapa que quase ninguém preenche, e ela é a mais rentável. A meta-análise de treinamento por modelagem de comportamento de Taylor, Russ-Eft e Chan, publicada no Journal of Applied Psychology em 2005 sobre 117 estudos, lista entre os fatores que aumentam a transferência um que soa administrativo e não é: envolver também os superiores. Se o gestor direto não sustenta o comportamento novo, ele volta a cobrar o antigo na primeira semana de pressão. E a primeira semana de pressão chega sempre. Antes de decidir o que fazer com os gestores, aplique o instrumento neles, porque o que o mapa devolve quase nunca é a intervenção que se esperava.
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Kotter em três peças, e o teste que reprova quase todo patrocínio
Do arcabouço de oito passos que Kotter publicou em 1996, três fazem trabalho pesado num rollout comercial e os outros cinco são consequência. Coalizão condutora, remover barreiras e vitórias de curto prazo. As três respondem a perguntas operacionais: quem precisa estar na sala, o que impede a execução mesmo com todo mundo querendo, e qual resultado visível você produz antes de a paciência acabar.
- Coalizão condutora e patrocínio ativo e visível
A coalizão condutora é o grupo com poder, credibilidade e diversidade funcional suficientes para conduzir a mudança. Nunca uma pessoa só, nunca só o time de projeto. Num rollout comercial ela precisa conter quem decide prioridade, quem controla o sistema e quem responde pelo número do trimestre.
Patrocínio ativo e visível é o executivo com autoridade sobre o processo participando de forma contínua e observável: comunicando pessoalmente, alinhando os outros líderes e decidindo sobre prioridades conflitantes. É diferente de autorização. Um e-mail dizendo que apoia a iniciativa é autorização. Patrocínio é o CRO abrir a reunião semanal de pipeline recusando-se a revisar negócio que não está conforme o processo novo.
Por que importa: é o achado que a literatura de gestão de mudança mais repete. A Prosci, no relatório Best Practices in Change Management, reporta que 79% dos participantes com patrocinador extremamente eficaz atingiram os objetivos do projeto, contra 27% com patrocinador extremamente ineficaz, e aponta patrocínio ativo e visível como contribuinte número um para o sucesso. Leia o recorte antes do número. É autorrelato de profissionais de gestão de mudança sobre os próprios projetos, com risco evidente de causalidade reversa: quem entregou o projeto tende a lembrar melhor do patrocinador. E este par de percentuais circula atribuído a mais de uma edição do relatório, de modo que eu não consigo fixá-lo num ano e numa amostra específicos. Trate como direção repetida em edições sucessivas, não como medida verificada, e não o leve a uma reunião de orçamento como se fosse dado auditado.
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Vitória de curto prazo entra nesta conversa por um motivo aritmético, não motivacional. Você precisa de um resultado observável antes de a paciência do patrocinador acabar, e a paciência de um CRO dura aproximadamente um trimestre. Isso elimina, como primeira vitória, qualquer coisa cujo efeito dependa de um ciclo de 94 ou 186 dias. Sobra o segmento de ciclo mais curto, e é por isso que o piloto do capítulo seguinte começa no SMB.
Remover barreiras, em concreto
A expressão é vaga em Kotter e precisa de tradução operacional. Num rollout comercial, remover barreiras significa quatro coisas verificáveis, e cada uma é uma pergunta de sim ou não. O gestor direto sabe cobrar isso? Existe janela na semana para praticar? O sistema permite registrar a evidência sem exigir três telas? A remuneração deixou de premiar o comportamento antigo?
Se alguma resposta for não, corrija isso antes de treinar qualquer pessoa. Treinar com uma dessas em aberto é pagar por um comportamento que o ambiente vai desfazer.
Exercício 12.650 minutos, planilha
Use o instrumento nos casos abaixo. Em todos, a resposta exige nomear o ponto de barreira antes de prescrever qualquer coisa.
- Um AE de mid-market recebe notas 5, 2, 5, 5 e 4. Nomeie o ponto de barreira e escreva a intervenção, em uma frase, sem usar a palavra treinamento.
- O CRO propõe dois planos. O plano A gasta R$ 6.865 em meio dia de treinamento para todos. O plano B gasta o mesmo em quinze conversas individuais de quarenta minutos. Com o mapa da Figura 12.6, diga qual dos dois endereça mais pontos de barreira e mostre a conta.
- Num time de seis pessoas, quatro têm ponto de barreira em Reinforcement. Qual é a leitura e qual é a prescrição? Ela é uma sessão ou um ritual?
- Você lista os eventos públicos do patrocinador e encontra dois: um e-mail de apoio e uma menção de trinta segundos no all hands, provocada por você. Escreva a recomendação que você leva ao CRO, em duas frases.
- Um colega apresenta um mapa em que as quinze pessoas têm ponto de barreira na mesma coluna, Knowledge. O que você verifica antes de aprovar a compra do treinamento?
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- O ponto de barreira é Desire, a nota 2 na segunda coluna. A intervenção é tratar o interesse individual: entender o que essa pessoa perde com a mudança. Num AE que fecha com desconto médio alto e retenção de carteira baixa, o processo novo provavelmente retarda o desconto e expõe uma prática que hoje o beneficia. Treinar não move nada, porque a nota em saber como fazer é 5.
- O plano B endereça mais pontos de barreira, e por uma margem grande. O plano A é intervenção de Knowledge e atinge 2 das 15 pessoas. O plano B, com conversas individuais, consegue atacar consciência, desejo e reforço, que somam 8 pessoas, e ainda produz o diagnóstico que o plano A não produz.
- Quatro de seis travados em Reinforcement significa ausência de consequência, não de capacidade. A prescrição é cadência e medição visível: o número de adoção real do time apresentado toda semana pelo gestor, com nome, e a inspeção do comportamento dentro de um ritual que já existe. É um ritual, não uma sessão.
- O teste de patrocínio reprova. Dois eventos, um deles e-mail, que não conta, e o outro provocado por você, que também não conta. A recomendação é adiar o início e converter as próximas três semanas em construção de patrocínio, porque começar sem ele produz um fracasso público que encarece a próxima tentativa. Dizer isso ao CRO é parte do trabalho, não uma ousadia.
- A armadilha está em aceitar a premissa. Um mapa em que as quinze pessoas travam no mesmo elemento não é diagnóstico de quinze pessoas: é sintoma de que quem pontuou usou uma régua só. Antes de prescrever, verifique se cada nota tem evidência por pessoa ou se é uma impressão sobre o time projetada quinze vezes.
Armadilha: usar ADKAR como checklist de projeto em vez de diagnóstico por pessoa
O slide existe em toda consultoria e é sempre o mesmo. Cinco caixas na horizontal, visto verde nas três primeiras, um texto dizendo que a fase de Awareness foi concluída com o comunicado de janeiro e a de Knowledge com o treinamento de fevereiro. O projeto declara 60% de ADKAR completo e segue para a próxima fase.
O erro não é de rigor acadêmico. O modelo descreve a mudança de uma pessoa, e a pergunta que ele responde é sempre individual. Tratado como fase de projeto, ele perde a informação que o torna útil: a de que o time não é homogêneo e a de que dinheiro gasto numa intervenção de Knowledge não encontra quem está travado em Ability. Na Órbita, o slide de 60% teria sido apresentado no mesmo mês em que 7 das 15 pessoas estavam travadas depois do elemento que o slide declarou concluído.
A sanção chega na reunião de conselho seguinte. Você apresenta um projeto com três fases concluídas e uma adoção real de 14,8%. Renata Kobayashi faz a pergunta que ninguém fez, que é como as duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. A resposta honesta é que o checklist mediu a atividade do time de projeto e não a mudança de comportamento de ninguém, e quem apresenta essa resposta perde a pauta pelo resto do ano.
Recuperação
Responda antes de abrir. Tentar e errar consolida mais que reler.
1Diga o que é o ponto de barreira e por que intervir em elementos posteriores a ele é desperdício.
É o primeiro elemento com nota igual ou menor que 3, na sequência consciência, desejo, saber, conseguir e reforço. Intervir depois dele é desperdício porque os elementos posteriores não se sustentam sem o anterior: treinar alguém que não quer participar produz uma pessoa que sabe e continua sem fazer.2Num time de 24 pessoas, 11 travam em Ability, 3 em Knowledge e 10 não têm barreira. Um treinamento para todos custa R$ 96 mil, de uma vez, para o time inteiro. Calcule o custo por pessoa efetivamente endereçada e diga o que fazer com as 11.
R$ 96 mil ÷ 3 = R$ 32 mil por pessoa endereçada, porque treinamento é intervenção de Knowledge. As 11 em Ability precisam de prática no processo real, ou de um processo que caiba no trabalho delas. Onze de 24 no mesmo elemento é agrupamento, e agrupamento é indício de problema de desenho. Verifique o desenho antes de comprar qualquer sessão.3O Módulo 8 mostrou que cada função deve ser paga pela última coisa que ela controla sozinha. Ligue esse princípio ao elemento Desire e diga o que você verifica antes de concluir que alguém não quer mudar.Módulo 8 · 8.3
Verifica se a remuneração continua premiando o comportamento antigo. Desejo não é traço de personalidade, é resposta a incentivo. Se o plano paga sobre uma base que a mudança dificulta, ou se o crédito da comissão passa a demorar mais, a pessoa está respondendo racionalmente ao contrato que assinou. Corrija o plano antes de chamar isso de resistência.4Escreva de memória o teste de patrocínio e o critério de reprovação.
Liste os quatro últimos eventos públicos em que o patrocinador tocou no assunto sem ser provocado. Se a lista tem menos de três itens, você não tem patrocínio, tem permissão. E-mail não entra na lista, porque não tem plateia que observe a reação dos outros líderes.