Laboratório 6
O dicionário de métricas da Órbita e o relatório de saúde de pipeline que termina em decisão
Dicionário de 8 fichas, planilha de conversões e coortes, 6 consultas comentadas e um relatório de uma página · 16 a 20 horas · entrega no fim da semana do Módulo 6
O briefing. Reunião de preparação do conselho. Helena Braga pergunta a Rafael Nunes qual foi o win rate de 2025 e ouve 28,9%. Aline Ferraz, que está na sala, diz que nos números dela é 6,1%. Bruno Capucci abre o relatório do CRM no projetor e a tela mostra 62% na etapa de Proposta. Ninguém errou uma conta. Renata Kobayashi ouve os três em silêncio e depois diz: “Eu não vim discutir qual dos três números é o certo. Vou fazer outra pergunta, e ela é mais barata de responder: quem é o dono da definição de win rate nesta empresa? Se ninguém levantar a mão em dez segundos, vocês não têm uma métrica. Têm uma opinião com casa decimal, e é ela que está no material da Série C.”
Ninguém levantou a mão. Você é a pessoa de RevOps e a tarefa caiu no seu colo com prazo de uma semana. Repare no que ela não pediu. Não pediu um número novo, não pediu um painel e não pediu uma ferramenta. Pediu um dono e uma definição, que custam R$ 0 e são a única coisa que a Órbita nunca produziu. A entrega tem seis partes, nesta ordem.
- Peça 1, o dicionário de oito fichas. Quatro páginas. Escreva a ficha completa de oito métricas: win rate por contagem, win rate ponderado por valor, conversão por etapa, ciclo de venda, cobertura de pipeline, velocidade de pipeline, GRR e NRR. Cada ficha com os sete campos, sem exceção: numerador, denominador, janela de tempo e qual data a ancora, filtros de inclusão e exclusão, sistema-fonte com o nome do campo, granularidade mínima em que a métrica é válida, e dono. Dono é uma pessoa, não uma área. Na ficha de conversão por etapa você é obrigado a declarar qual dos três métodos é o oficial da empresa e por quê, e a dizer o que se faz com os outros dois. Nas fichas de GRR e NRR, declare explicitamente o tratamento do reajuste contratual por índice. A escolha é material e a aritmética está publicada: a Órbita fechou 2025 com NRR de 97,3%, mas R$ 364 mil da expansão do ano são reajuste por IPCA aplicado em 58% dos elegíveis, o que derruba o número para 95,3%; e se você contar só a expansão efetivamente vendida, R$ 1,24 milhão de upsell, upgrade e cross-sell, sobra 87,2%. São −10,1 pp entre a primeira leitura e a terceira, e as três são defensáveis. Não declarar não é. A mediana de mercado para comparação é 102%, com quartil superior em 111% e inferior em 97% (SaaS Capital, pesquisa anual 2025, SaaS B2B privado com ACV entre US$ 25 mil e US$ 50 mil por cliente ao ano, com aumento de preço contado como expansão): diga contra qual das suas três linhas esse benchmark é comparável, porque duas delas não são.
- Peça 2, as três conversões e a velocidade por segmento. Uma planilha mais três páginas. Escolha a safra e justifique a escolha pelo ciclo mediano, não pela média: o mid-market tem mediana de 94 dias e P90 de 158, portanto uma safra só está madura depois de 188 dias. Para cada uma das 6 etapas vigentes do funil mid-market, calcule a conversão pelos três métodos, instantâneo, coorte de entrada e fluxo de saída, e também a conversão acumulada até o ganho. Monte a tabela comparativa com as quatro colunas lado a lado e uma quinta coluna dizendo para que serve cada número. Um aviso de realidade que vale nota: a Órbita não registra histórico de data de fechamento prevista, o CRM sobrescreve o campo, e a data de início de vigência diverge da data de fechamento em 61% dos contratos. Diga qual das três conversões fica impossível de calcular com o dado que existe hoje, e qual campo precisa ser criado para destravá-la. Em seguida calcule a velocidade de pipeline segmento a segmento e faça o teste que quase ninguém faz: some os três. O ticket que entra na fórmula é o ACV dos novos de cada segmento, que é o preço de um cliente por ano a que o funil fechou, e não o ACV da carteira em dezembro, que carrega contrato antigo: a fórmula mede receita nova da empresa por dia. Trocar de ticket no meio do caminho é como a mesma operação passa a ter duas velocidades. O SMB dá R$ 15,1 mil por dia, o mid-market R$ 8.511 e o enterprise R$ 1.881, somando R$ 25,5 mil, contra R$ 19,2 mil da versão agregada publicada na Fase 1. São 33,2% de diferença sem que nenhum dos dois cálculos esteja errado. Explique a causa em no máximo cinco linhas. Feche com um parágrafo endereçado à diretoria explicando por que o funil do CRM mostra números maiores que os seus, escrito de forma que Rafael Nunes possa ler sem sentir que está sendo acusado de algo, porque ele não está.
- Peça 3, as coortes e a razão revelada. Três páginas mais a planilha. Construa a coorte de logo e a coorte de receita normalizada, por segmento, a partir dos dados de assinatura. Normalize dividindo cada célula pelo M0 da própria coorte e exclua do M0 a receita não recorrente de implantação, ou toda a curva vai parecer despencar no M1 por um motivo que não existe. Hachure a diagonal imatura antes de calcular qualquer média: na tabela publicada na Fase 1 são 12 células de 40 que ainda não têm idade para existir. Depois aponte o mês em que a deterioração começa e formule uma hipótese datada sobre o que mudou no negócio naquele mês. A resposta está no dataset e não é uma opinião. Cruze com a coluna M12 aberta por segmento, porque a média agregada escondeu por dezoito meses que mid e enterprise praticamente não se moveram. Na segunda metade da peça, desenhe o programa de win/loss: quem entrevista e por que não pode ser o AE do negócio, quando entrevistar, quantas entrevistas por segmento e por que entrevistar vitórias também. Use como matéria bruta as 455 perdas de 2025 e a recodificação manual que Bruno Capucci fez uma única vez, em julho, sobre os 214 valores distintos digitados no campo. Ela diz que preço explica 24,0% das perdas e que a maior categoria, com 31,0%, é o cliente que não decidiu nada e ficou com a planilha. Escreva por que esses dois números são hipóteses e não evidências, e dimensione a amostra: a referência de saturação é de 25 a 30 entrevistas por segmento (Clozd, State of Win-Loss, 2025), e a mesma fonte registra participação de 15% a 30% em entrevista ao vivo contra 3% a 5% em pesquisa por formulário. Com 185 logos novos no ano, diga se essa amostra é meta anual ou trimestral e o que você corta primeiro se não couber. Feche com a base legal da LGPD para gravar as entrevistas, o aviso ao titular e o prazo de retenção da transcrição. Voz é dado pessoal. Programa de win/loss desenhado sem base legal não é um programa: é um passivo com roteiro de perguntas.
- Peça 4, as seis consultas e o relatório de uma página. Duas páginas mais o arquivo de consultas. Entregue seis consultas comentadas, cada uma com a pergunta de negócio escrita em português acima do código e a leitura do resultado escrita abaixo: contagem de oportunidades criadas por mês e segmento; conversão adjacente por etapa para a safra que você escolheu na Peça 2; tempo mediano em cada etapa; comparação do ARR novo de cada mês com o mês anterior; primeira assinatura de cada cliente, para atribuir a coorte; e a tabela de coorte de receita. Toda consulta com JOIN declara o grain da saída num comentário antes do código, e traz a verificação: COUNT(*) antes e depois, mais a soma de controle que amarra o total a um número já publicado no seu dicionário. Fan-out não dá erro de execução, só deixa o total maior, e por isso ele passa. Depois escreva o relatório: uma página, endereçado a Rafael Nunes. Estrutura obrigatória, sem substituições. Veredito em uma frase. Três números que sustentam o veredito, cada um com o denominador absoluto ao lado, no formato “28,9% (185 de 640)”. O que mudou desde a última leitura. Três decisões recomendadas, cada uma com dono e prazo. No máximo três gráficos, cada um justificado pelo tipo de comparação que serve. Nenhum eixo truncado, nenhum eixo duplo, nenhuma área usada para comparar magnitude e nenhuma categoria outros com mais de 5% do total.
- A objeção. Antes de entregar, escreva meia página com o título “Por que isso não vai funcionar”. Escolha a pessoa que mais perde com a sua proposta e escreva a objeção dela em primeira pessoa, com as palavras que ela usaria. Se a sua definição oficial de conversão derrubar o win rate publicado, a pessoa é Rafael Nunes, e o que você está tirando dele não é um número: é o argumento com que ele defendeu o orçamento do time no último ciclo. Se a sua ficha de NRR separar o reajuste por índice da expansão vendida, a pessoa é Helena Braga, porque 10,1 pp a menos de NRR no material da Série C não é uma correção metodológica aos olhos de um fundo. Se a sua regra de higiene fechar como perdido todo negócio parado além de dois ciclos medianos, a pessoa é Diego Salles, porque o pipeline de mid-market carrega 26% do valor sem atividade há mais de 45 dias e idade média de 74 dias. Responda à objeção com um número, e não com um princípio. Quem não antecipou a objeção não fez uma recomendação. Fez um pedido.
- A verificação em 90 dias. Termine nomeando uma única métrica que estará diferente em 90 dias se o dicionário for adotado. Uma. Escreva a linha de base de hoje com a fonte exata de onde ela sai, o valor prometido em 90 dias, quem lê o número e em qual reunião, e o que acontece se ele não se mexer. Há uma armadilha aqui e ela vale nota. O candidato óbvio é o viés do forecast, hoje em −12,5 pp de média em 6 trimestres. Não sirva. Noventa dias é um trimestre, um trimestre é uma observação, e uma observação não mede viés. Escolha uma métrica que você consiga ler mais de uma vez na janela e que mude por causa da sua entrega, não por causa do mercado. “Número de métricas publicadas em reunião de diretoria sem ficha vigente: hoje todas as oito; meta de zero em 90 dias, conferido na ata de cada reunião pela pessoa de RevOps” é uma. Sem essa linha, o dossiê é uma opinião bem formatada sobre medição, e a Órbita já produz opinião bem formatada em nove painéis.
Uma restrição de forma, que vale nota. O dicionário precisa ser legível por Cláudia Meirelles sem tradução e executável por Bruno Capucci sem conversa com você, porque ele é a única pessoa que vai rodar isso todo mês e não tirou férias em 2025. Se alguma ficha exige que você esteja na sala para ser aplicada, ela não é uma ficha. É uma anotação. E lembre da restrição mais dura de todas: a Órbita não tem armazém de dados nem catálogo de dados, e o seu entregável precisa funcionar sobre exportação em CSV e planilha. A disciplina é o que sobrevive à troca de ferramenta. A ferramenta, não.
Critérios de avaliação
| Dimensão | Insuficiente | Adequado | Nível MBA |
|---|---|---|---|
| Completude da definição | As fichas trazem numerador e denominador e param aí. Nenhuma declara qual data ancora a janela, que é onde nascem as maiores divergências. As fichas de GRR e NRR copiam a fórmula internacional sem dizer o que acontece com o reajuste anual por índice. Duas pessoas lendo a mesma ficha produzem números diferentes e nenhuma consegue apontar em qual campo elas discordaram. | As oito fichas têm os sete campos preenchidos, inclusive sistema-fonte com o nome do campo e granularidade mínima válida. A ficha de NRR declara a escolha sobre o reajuste, justifica, e publica as duas linhas: 97,3% com o reajuste dentro e 95,3% sem ele. Cada ficha tem um dono nomeado, não uma área. | Passa no teste do estranho com evidência anexa: um colega que não participou da construção refez ao menos duas métricas usando só a ficha e chegou ao mesmo número, e o relato do que ele perguntou está no dossiê. Publica a terceira linha do NRR, 87,2% contando só a expansão efetivamente vendida, e explica que a queda de 10,1 pp mede quanto da expansão do ano foi índice e crescimento automático de frota, e não venda. Define a regra de vigência: toda mudança de definição cria versão nova com data de corte e a série antiga não é recalculada em silêncio. |
| Escolha do método de conversão | Publica uma taxa de conversão por etapa sem dizer qual dos três métodos produziu o número, ou usa o relatório nativo do CRM porque ele já vem pronto. Usa a conversão adjacente para ponderar pipeline, o que infla o forecast em toda etapa que não seja a última. A safra é escolhida por conveniência de calendário, tipicamente o último trimestre fechado. | A tabela traz todas as etapas vigentes do funil mid-market pelos três métodos mais a conversão acumulada até o ganho, aritmeticamente correta. A safra é justificada por duas medianas de ciclo, 188 dias, e a justificativa usa a mediana e não a média. A ponderação de pipeline do relatório usa a acumulada, e o texto diz explicitamente por que a adjacente não serve para isso. | Explica a divergência pelo mecanismo, não pela constatação: mostra que a razão entre estoques é a conversão verdadeira multiplicada pela razão entre tempos de permanência, e usa isso para prever o sinal da divergência antes de calculá-la. Na velocidade de pipeline, usa o ACV dos novos como ticket, soma as três velocidades segmentadas, encontra R$ 25,5 mil por dia contra os R$ 19,2 mil publicados no agregado, e nomeia a causa: a fórmula não é aditiva porque o ciclo está no denominador. Nomeia as quatro limitações da fórmula, inclusive o acoplamento entre ticket e ciclo, com um número para o ponto de virada. |
| Tratamento do que não amadureceu | A tabela de coortes é lida inteira, incluindo as células da última diagonal, e a média de retenção sobe. Oportunidades reabertas depois de perdidas e oportunidades que regrediram de etapa são ignoradas ou removidas sem regra escrita. Negócios parados há mais de dois ciclos medianos continuam no denominador da cobertura e no numerador do pipeline. | As 12 células sem idade suficiente estão hachuradas e fora de qualquer média, e o texto diz quantas são e por quê. A regra de reabertura está escrita no dicionário: reabertura é continuação do mesmo negócio, com ciclo contado desde a criação original. O ciclo é publicado como mediana e P90, separadamente para ganhos e perdas. | Demonstra a inversão: calcula a série de retenção em M12 com e sem a diagonal imatura e mostra que as duas conclusões têm sinais opostos, com a tabela lado a lado no dossiê. Aplica a mesma disciplina ao pipeline, retirando do numerador da cobertura os 23% do valor que estão parados há mais de 45 dias e mostrando quanto a cobertura cai quando isso é feito. Trata o efeito de calendário brasileiro na leitura diagonal e justifica o grão trimestral em vez do mensal quando a coorte é pequena. |
| Rigor da extração | As consultas retornam resultado mas nenhuma declara o grain da saída. Alguma soma valor de oportunidade depois de um JOIN com uma tabela filha, e o total de receita fica maior que a soma direta da tabela de origem sem que ninguém perceba, porque fan-out não produz erro de execução. A conversão por etapa é calculada sobre o estágio atual do registro, e não sobre o histórico de mudança de etapa. | As seis consultas executam, cada JOIN traz o grain da saída declarado em comentário na primeira linha, e o total de receita bate com a soma direta da tabela de origem. Cada consulta vem com a pergunta de negócio em português acima e a leitura do resultado abaixo. A coorte é montada a partir da primeira assinatura de cada cliente, e não da data de fechamento da oportunidade. | Cada consulta traz a verificação que a valida, não só o resultado: COUNT(*) antes e depois do JOIN, e a soma de controle que amarra a saída a um total já publicado no dicionário. Publica o equivalente conceitual em planilha ao lado de pelo menos três consultas, porque a pessoa que vai manter isso na Órbita trabalha em Google Sheets. Declara em qual dialeto as consultas foram escritas e o que muda no outro, já que DATE_TRUNC e a função de diferença de datas não são iguais nos dois bancos que a empresa pode acabar usando. |
| Do número à decisão | O relatório descreve o trimestre e termina em constatação. Porcentagens aparecem sem o denominador absoluto ao lado. Há eixo truncado, eixo duplo ou uma categoria outros que esconde a parte que interessa. O veredito da primeira frase é um adjetivo: o pipeline está saudável, a conversão está estável. | Uma página, veredito em uma frase, três números que o sustentam, cada um com o denominador absoluto ao lado, o que mudou desde a última leitura e três decisões com dono e prazo. No máximo três gráficos, cada um justificado pelo tipo de comparação que ele serve. Nenhum eixo truncado e nenhum eixo duplo. | A escolha de cada gráfico é justificada pela hierarquia perceptual, citando Cleveland e McGill (1984) como base, e pelo menos um gráfico foi rejeitado por escrito com o motivo. A janela do relatório recorrente é fixada no dicionário antes da primeira publicação, para que ninguém a escolha depois de ver os dados. As três decisões são escaláveis por quem lê: cada uma diz o que acontece se não for tomada, em reais, e pelo menos uma delas contraria o interesse declarado de alguém nomeado no dossiê. |